A Pedalada Perfeita – Mito ou Verdade

Autor: Eng. Rostan Piccoli
rostan.piccoli@gmail.com

Introdução:

Escrevo este artigo a respeito de uma avaliação que fiz após estudar sobre o assunto da eficiência da pedalada e de perceber o folclore existente, e como bom engenheiro procurei identificar o correto na eficiência dos números.

Muito se fala da pedalada perfeita, e hoje graças a tecnologia já bem acessível, é possível monitorar em tempo real como está seu desempenho no giro dos pedais.

Equipamento Utilizado:

Quando da escolha do medidor de potência, foi feita uma avaliação que principalmente levou em consideração a capacidade do medidor em identificar o vetor de potência, ou seja direção, sentido e o ângulo da força no plano xyz. A cerca de um ano o único produto capaz de realizar esta tarefa era o Garmin Vector com o POD Version 2. Atualmente a look tem oferecido um produto semelhante, mas outro aspecto levou a escolha da Garmin, um software muito bom de avaliação e medição. Será necessário ainda um aparelho capaz de receber os dados e mostrar os mesmos, para isto foi utilizado o Garmin Edge 1000.

Embasamento Teórico:

Para entender a respeito da eficiência é necessário conhecer o que ocorre quando é utilizada a bicicleta.

Em termos gerais é necessário transportar sua força física gerada pelos músculos que é passada para a parte mecânica da bicicleta através do sistema pedal e sapatilha. Esta transmissão de energia certamente tem que ser perfeita, pois caso contrário vai ser perdido muito trabalho. Claro que posteriormente ela precisa ser transmitida para as rodas o que é feito pela corrente da bicicleta, se a corrente estiver desgastada vai perder energia e assim sucessivamente em todos os elementos, até o contato do pneu com o piso.

O foco do estudo está na transformação da energia física para mecânica que ocorre no pedal durante o ciclo de uma pedalada. Nesta passagem temos alguns fatores bem relevantes, o principal é claro quanto de energia que você tem para transmitir, esta energia é medida em Watts, a mesma medida de energia elétrica entre outras formas de energia. Existem ainda as potências médias e as potências máximas geradas. Basicamente é a força dos seu músculos, mas não se iluda não quer dizer que um ciclista super forte seja mais eficiente que um magrelo. O que existe é a relação da potência com o peso da pessoa, em linhas gerais você ter 200 watts em 100 kg e ter 150 watts em 60kg, fica beneficiado o atleta que tem 150watts para 60kg, uma relação de 2,5 kg/watts gerados.

Para transmitir a energia para o pedal, o ideal que seja feita por igual em todo o contato, ou plataforma do pedal, este contato é medido pelo PCO, Pedal Center Offset, basicamente um PCO de zero quer dizer que se está conseguindo fazer força centralizada ao pedal, um valor negativo, vai estar mais próximo ao pedivela, um valor positivo mais externo ao pedivela. No exemplo a seguir vemos um PCO negativo. (3)

pco

Em seguida é medido quanto de força que você aplica em cada pedal a cada giro efetuado pelo sistema de transmissão, este parâmetro é conhecido como balanceamento de carga ou equilíbrio E/D, o ideal e que seja 50% – 50% ou seja as pernas devem fazer força por igual.

Outra medida importante é o ângulo da força no pedal, ou fase de força. Imagine que seu movimento do pedal gere um círculo, e que um círculo tem 360º. É medido então por quantos graus você consegue aplicar força nos pedais, aí entra o mito da pedalada perfeita que aplica força em 360º, isto não existe. É possível fazer em um momento de demonstração apenas. Se alguém discordar por favor me mostre de forma pragmática que isto existe em uma pedalada de 5 horas. No ângulo ainda é medido qual parte dele você consegue aplicar a maior força, isto é referenciado como ângulo de maior força. Estas medidas são diretamente afetadas pela sua posição na bike, sendo assim não se faz necessário lembrar que é preciso um bike fit muito bem feito para ajustar seu desempenho na máquina. Nesta medida ainda temos o Pico da Fase De Força, sendo o arco onde é aplicada a maior força nos pedais. (1) (2) (3)

Estas medidas, levam a outras duas que são importantes demais para não serem dadas a devida atenção, e que acredito que a maioria que está lendo tenha desprezado. A primeira é o Torque Effectiveness ou Eficiência do Torque. Torque está associado ao ângulo aplicado com a força. Ele mede quanto eficiente está sendo sua aplicação de força para empurrar a bike para frente, então se ele for de 90%, você usou apenas 90% de força para movimentar a bike o resto você aplicou errado no pedal, impressionante né. Esta aplicação errada pode ser colocação em ângulo não produtivo, imagine empurrar um objeto e não aplicar a força diretamente no sentido adequado de movimentá-lo. Outra perda de provém do fato de eventualmente ser utilizada a força de uma perna para empurrar a outra, isto ocorre por exemplo no movimento de empurrar a perna direita para baixo, se for deixada “morta” a perna esquerda, você vai utilizar força da direita para fazer subir a perna esquerda. Leia esta referência da garmin para maiores detalhes. (3)

A outra medida é o Pedal Smoothness (2), ou suavidade do pedal. Esta é um pouco mais difícil de entender, trata-se de uma média feita onde é levado em consideração a potência média dividida pela potência máxima aplicada. (3)

Estes valores são medidos de forma independente em suas pernas, pode ser feito um teste removendo uma perna do pedal e monitorando os valores.

Avaliação Prática

Depois de avaliar algumas atividades de ciclistas utilizando o equipamento de medição de potência, e levando em considerações artigos a respeito dos itens avaliados, podemos elaborar algumas condições de referência.

PCO: O ideal é estar em zero, ou no máximo atingir uma diferença de 10mm para mais ou para menos.

Balanceamento de carga: como citado o ideal é 50% – 50%, mas uma relação de até 47% – 53% tem sido considerada aceitável. Valores alto de desequilíbrio, indicam um mal posicionamento na bicicleta, uma lesão mal curada. Indicaria procurar um profissional para fazer uma avaliação e descobrir a origem. Eventualmente um trabalho em academia poderá resultar numa melhora substancial.

Ângulos de força: O ideal e estar entre 220 a 250º, ou seja, na média você deve ser capaz de gerar força por este arco. Sendo que o ângulo de força máxima é comum estar entre 45 e 50º.

Eficiência do Torque: Foi criada uma divisão por classes, esta divisão eu que propôs:

Excelente – 90 a 100% – Esta faixa pode ser alcançada somente com muito preparo físico.

Bom – 80 a 90% – Esta faixa deve ser procurada a todo custo.

Regular – 70 a 80% – Fuja deste intervalo.

Normal – 60 a 70% – Se for competidor procure orientação, exceção se for um treino recreativo

Ineficiente – abaixo de 60%

Suavidade do Pedal: Este valor será muito difícil ultrapassar os 40%.

Excelente – acima de 40%

Ótimo – 35% a 40%

Bom – 30% a 35%

Normal – 25% a 30%

Ineficiente – abaixo de 25% – Se for um treino recreativo pode ser aceito.

Monitoramento do Garmin 1000

Recomenda-se que configure as telas do Garmin 1000 para monitorar ao menos as variáveis listadas anteriormente. Na primeira figura, é possível monitorar a potência média em 3 segundos, a potência instantânea sofre muita variação. Média esquerda de fase de potência e média direita de fase de potência. A eficiência do torque, suavidade do pedal, balanço médio de força aplicada. Coloco ainda cadência, batimento cardíaco e velocidade instantânea.

A segunda tela é feito o monitoramento em tempo real do ângulo de força aplicado além da força aplicada em cada perna e o total, o PCO.

Conclusão

Fica claro que uma avaliação perfeita destes parâmetros vai aumentar a eficiência de sua pedalada e utilizar eventualmente músculos que você faz pouco uso deles. Certo que hoje ainda é um investimento alto para possuir um equipamento de medição que possa lhe oferecer todos estes dados, mas também é certo que o retorno é igualmente importante.

Caso tenha o aparelho e seus dados deixem você abaixo do que seria o médio, será necessário fazer primeiro um trabalho de avaliação da sua posição na bike. Procure um profissional capacitado e faça um bike fit. Em seguida monitore em tempo real as variáveis e tente consertar sua pedalada. Isto pode ser feito em um treino específico, vai doer muito consertar, é quase como querer desentortar uma árvore ou um osso torto, seu músculos vão reclamar.

Um exercício que utilizei, que fez bastante efeito, foi pedalar com apenas uma perna por um período de tempo. Você tem que ensinar sua perna a girar corretamente, até isto ficar mecânico, depois vai invertendo as pernas, e observe os dados no monitor.

Bom como conclusão final, fica claro que se você não tem como medir estes valores, estará já sofrendo muito em relação a quem pode ter estes dados.

 

Referências Bibliográficas:

1 – http://www.davidwatsoncoaching.co.uk/single-post/2015/05/06/Pedalling-Technique-for-Increased-Power-and-Efficiency

2 – https://www.cyclinganalytics.com/blog/2014/04/torque-effectiveness-and-pedal-smoothness

3 – https://forums.garmin.com/showthread.php?244995-Cycling-Dynamics-Torque-Effectiveness-(TE)-and-Pedal-Smoothness-(PS)

Anúncios

1 comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s